DIVIDIR PARA DOMINAR: A ESTRATÉGIA GEOPOLÍTICA QUE PODE ENFRAQUECER O OCIDENTE E COMPROMETER O FUTURO DO BRASIL
A frase “Dividir e conquistar”, do latim divide et impera, também traduzida como “dividir para governar”, não tem autoria comprovada de uma única pessoa.
Quase 400 anos antes de Cristo, a frase teria sido empregado como estratégia por Filipe II da Macedônia para enfraquecer seus adversários.
Nicolau Maquiavel — abordou a estratégia militar de dividir as forças inimigas em sua obra A arte da guerra, publicada em 1521. (https://latin.stackexchange.com/questions/18468/reference-for-divide-et-impera?
A partir dessa reflexão, veja esta história:
O rapaz, cansado dos ratos que destruíam suas plantações e roubavam o grão, inventou um plano esperto, mas cruel. Jogou um porco morto em um poço profundo e abandonado. Atraídos pelo cheiro, quase 80 ratos se lançaram no poço para se banquetear com a carniça. No início, tudo parecia maravilhoso. Havia mais do que comida suficiente para todos, e os ratos comiam até ficarem saciados.
Mas, quando a comida acabou, eles descobriram algo aterrorizante. As paredes do poço eram íngremes demais para escalar. Estavam presos. Dias se passaram, e a fome se transformava em desespero. O desespero se transformava em agressão. Os ratos, que antes comiam pacificamente lado a lado, começaram a lutar pela sobrevivência. No final, começaram a se matar e devorar uns aos outros.
Um a um, seu número diminuía, até que restou apenas um rato.
Seus olhos estavam injetados, e ele sobrevivera devorando seus companheiros. Então, o rapaz voltou, baixou uma corda no poço e resgatou o último sobrevivente.
Mas não o fez por bondade ou compaixão.
O rapaz sabia que o rato aprendera a sobreviver caçando outros ratos.
Quando o soltasse em seu campo, ele continuaria matando seus semelhantes em vez de comer seu grão.
O rapaz transformara seu inimigo em sua arma mais poderosa.
E essa é a lição do “dividir e conquistar”. Aqueles que controlam a armadilha não precisam lutar as batalhas eles mesmos. Simplesmente criam as condições em que os outros se voltam uns contra os outros.
Os ratos acreditavam que seus inimigos eram os outros ratos.
Nunca perceberam que o verdadeiro inimigo era o rapaz que os jogara ali.
O maior perigo nem sempre é o inimigo que está à sua frente.
Às vezes, é aquele que criou o conflito e observa em silêncio enquanto vocês se destroem mutuamente.
Talvez a verdadeira pergunta não seja de que lado você está, mas quem construiu o poço, e por que quer que lutemos em seu fundo?
Sendo assim, é importante avaliar que a lição é importante, mas devemos ter em mente que a estratégia de dividir não garante sucesso.
Por que não garante? Ora, a resposta é bem simples:
Uma ameaça externa pode transformar divergências em solidariedade.
Como essa estratégia funciona na prática
Na geopolítica, dividir não significa necessariamente provocar uma guerra civil ou um conflito militar.
A divisão pode ser econômica, diplomática, ideológica, tecnológica ou institucional.
A guerra dos EUA contra o Irã provou isso recentemente.
Outro exemplo,
Depois da anexação da Crimeia pela Rússia, em 2014, e, sobretudo, da invasão em grande escala da Ucrânia, em 2022, Estados Unidos e países europeus ampliaram a coordenação das sanções contra Moscou.
A Rússia, por sua vez, procurou preservar relações bilaterais com governos europeus e explorar divergências sobre energia, comércio e diplomacia.
O terceiro exemplo talvez seja o mais revelador. Confira,
Quando os Estados Unidos pressionam países europeus a restringir a participação chinesa em setores tecnológicos, podem entrar em conflito com interesses comerciais e decisões soberanas desses países.
Da mesma forma, divergências sobre tarifas, gastos militares e políticas de segurança podem enfraquecer a coesão ocidental.
Uma análise publicada pelo Council on Foreign Relations sobre a estratégia de segurança nacional americana divulgada em dezembro de 2025 destacou mudanças na relação de Washington com os aliados europeus e a reafirmação de sua influência no Hemisfério Ocidental. (https://www.cfr.org/articles/unpacking-trump-twist-national-security-strategy)
Isso revela um paradoxo: uma potência pode tentar preservar sua liderança pressionando os próprios aliados, mas, se exagerar, pode estimular esses países a buscar maior autonomia estratégica.
E a América Latina? Onde entra o Brasil?
Para a América Latina, essa discussão tem uma dimensão particularmente importante: a disputa entre autonomia nacional e dependência externa.
A região possui recursos estratégicos, como petróleo, minerais críticos, alimentos, água, energia e biodiversidade.
Estados Unidos, China e outras potências têm interesses econômicos e geopolíticos nesses ativos.
Nesse contexto, há três riscos principais:
- Rivalidades importadas: governos latino-americanos podem ser pressionados a escolher um lado na disputa entre Washington e Pequim, mesmo quando a diversificação de parceiros seria mais vantajosa.
- Fragmentação regional: divergências ideológicas entre governos podem dificultar projetos comuns de infraestrutura, integração comercial, defesa de interesses econômicos e negociação internacional.
- Dependência assimétrica: países que dependem excessivamente de um único mercado, financiador, fornecedor tecnológico ou parceiro militar ficam mais vulneráveis a pressões externas.
Para o Brasil, a questão estratégica é preservar a capacidade de negociar com diferentes potências sem transformar relações comerciais em alinhamentos políticos automáticos.
Isso não significa neutralidade absoluta nem indiferença diante de violações do direito internacional.
Significa avaliar cada relação conforme os interesses nacionais, os compromissos jurídicos e os custos de longo prazo.
No entanto a questão central é:
Quem realmente ganha quando os países se dividem?
A resposta depende de quem consegue transformar a divisão em vantagem concreta.
Enfim, a conclusão é simples: dividir os adversários pode ser uma estratégia; dividir os aliados pode ser um erro.
Na geopolítica, o poder não depende apenas de riqueza ou força militar, mas também da capacidade de construir alianças e preservar interesses comuns.
A estratégia de “dividir e conquistar” pode gerar vantagens imediatas, mas também provocar ressentimentos, novas alianças e perda de credibilidade.
Para o Brasil, o desafio é transformar divergências em convergências, preservar a autonomia e fortalecer seu poder de negociação.
Em um mundo multipolar, países isolados ficam mais vulneráveis; países que constroem interesses comuns negociam em melhores condições.


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