A mentira visual como arma política: até onde vai o uso da IA por parlamentares? Simular prisões não é liberdade de expressão — é abuso institucional
Pode um senador usar IA para mostrar ministros do STF e o presidente “atrás das grades”?
A resposta curta é: não pode — ao menos não sem violar limites constitucionais e legais.
Nos últimos tempos, o uso de inteligência artificial na política tem levantado debates sérios sobre liberdade de expressão, responsabilidade institucional e os riscos da desinformação. Um dos exemplos mais preocupantes é a produção de vídeos com aparência realista que mostram ministros do Supremo Tribunal Federal e o presidente da República em situação de prisão, como se fossem fatos consumados ou destinos inevitáveis.
Isso não é mero exagero retórico. É um problema jurídico e democrático.
Liberdade de expressão não é licença para abuso
Parlamentares possuem imunidade material para opiniões, palavras e votos relacionados ao exercício do mandato. Essa garantia existe para proteger o debate político — não para autorizar ataques pessoais, imputação de crimes ou encenações punitivas. (art. 53, caput). Essa garantia protege o debate político, não o abuso.
A partir do momento em que um senador:
• simula prisões inexistentes,
• associa pessoas identificáveis a crimes não julgados,
• e divulga esse conteúdo como crítica política,
ele ultrapassa o campo da opinião e entra no terreno do abuso do direito de expressão.
O uso de IA agrava a conduta
A inteligência artificial adiciona um elemento novo e perigoso: verossimilhança.
Vídeos criados por IA:
• parecem reais,
• circulam rapidamente,
• e atingem públicos que nem sempre distinguem sátira, opinião e falsificação.
Quando autoridades são retratadas “atrás das grades” por meio de IA, não se trata de charge ou caricatura clássica, mas de simulação de um fato jurídico inexistente. Isso pode configurar:
• difamação ou injúria,
• desinformação deliberada,
• abuso de poder comunicacional,
• e atentado à confiança pública nas instituições.
O Supremo Tribunal Federal e a proteção institucional
O Supremo Tribunal Federal já consolidou o entendimento de que críticas são legítimas, mas campanhas de intimidação, deslegitimação institucional ou punição simbólica não são.
Mostrar ministros “presos” equivale a:
• negar o devido processo legal,
• desrespeitar a separação dos Poderes,
• e transformar divergência política em ameaça simbólica.
Não é opinião. É encenação de sanção.
E quando o alvo é o presidente da República?
O mesmo raciocínio se aplica ao chefe do Executivo, atualmente Luiz Inácio Lula da Silva.
Sugerir sua prisão por meio de vídeos artificiais, sem decisão judicial e fora de contexto factual, ataca a honra funcional do cargo e alimenta narrativas falsas. Em ambiente eleitoral ou de alta polarização, isso pode ter consequências ainda mais graves.
Há consequências jurídicas?
Sim — e elas não são meramente teóricas.
Um parlamentar que adota esse tipo de prática pode enfrentar:
• investigações criminais,
• ações cíveis por dano moral,
• questionamentos eleitorais,
• e procedimentos no Conselho de Ética do Senado.
Mandato não é escudo para excessos, especialmente quando se utiliza tecnologia para fabricar realidades inexistentes.
📌 Referências normativas e doutrinárias
• Constituição Federal, art. 5º, LIV e LV (devido processo legal);
• Lei nº 12.965/2014 (Marco Civil da Internet), arts. 3º e 19;
• Princípio da boa-fé objetiva na comunicação pública.
• Constituição Federal, art. 2º (separação dos Poderes);
• Jurisprudência do STF sobre abuso do direito de expressão e proteção institucional (Inq. 4781 e correlatos).
• Constituição Federal, arts. 85 e 86 (responsabilização presidencial);
• Código Civil, art. 927 (responsabilidade por dano).
• Código Eleitoral, art. 237;
• Lei Complementar nº 64/1990 (Lei da Ficha Limpa);
• Regimento Interno do Senado Federal (Conselho de Ética).
Conclusão
A democracia pressupõe crítica, oposição e debate duro.
Mas não sobrevive à normalização da mentira visual, da punição simbólica e da erosão institucional.
👉 Crítica política é legítima.
👉 Caricatura e opinião são protegidas.
🚫 Simular prisões com IA não é exercício de liberdade — é abuso.
A tecnologia avança.
O Direito precisa acompanhar.
E a responsabilidade institucional não pode, jamais ser opcional.

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