Quando narrativas internas distorcem a imagem do Brasil lá fora. Quais são os riscos?
Veja:
Como a retórica da “direita perseguida globalmente” serve para diluir responsabilidades, distorcer a leitura política brasileira no exterior e reforçar interpretações simplistas sobre o país.
No dia 23/11, o deputado Eduardo Bolsonaro publicou no “X” essa mensagem:
“É isso que a esquerda espera para o futuro de
🇺🇸@realDonaldTrump
🇫🇷@MLP_officiel
🇦🇷@JMilei
🇸🇻@nayibbukele
🇮🇱@netanyahu
e qualquer outro político de direita.
Eles estão se tornando cada vez mais agressivos. Como eles agem globalmente, nós também precisamos reagir globalmente.”
A publicação veio acompanhada de foto do ex-presidente, reforçando a narrativa.
Um dos comentários ao post ilustra bem o efeito dessa exportação distorcida de conflitos internos:
“Senhor, com todo o respeito, havia muitas evidências de que Bolsonaro estava envolvido em uma conspiração para um golpe de Estado... pare de agir como se a esquerda fosse má no Brasil, todos os políticos no Brasil são iguais, de esquerda ou de direita... todos são corruptos, criminosos e não têm moral nem dignidade, essa é a cultura do Brasil, rsrs. (@skyneet_ John Connor)
Para o bom entendedor o deputado está afirmando que líderes de direita ao redor do mundo estariam sofrendo ataques coordenados da esquerda internacional.
Diante da afirmação do Deputado, é preciso observar alguns pontos essenciais que merecem averiguação cuidadosa.
1. O risco das generalizações externas
Quando figuras públicas projetam leituras parciais para o exterior, abrimos espaço para dois efeitos inevitáveis:
• observadores estrangeiros passam a enxergar o Brasil por lentes simplificadas;
• políticas sérias e quadros responsáveis são invisibilizados.
Por isso, o comentário ao post acaba chamando mais atenção do que a própria tentativa do deputado de internacionalizar questões políticas internas, algo que até Trump já abandonou.
Quem duvidar, basta conferir neste vídeo divulgado pela BBC no perfil do Instagram a singeleza da reação de Donald Trump ao ser questionado por um repórter sobre a prisão de Bolsonaro:
E quanto à afirmação de que ‘todos os políticos do Brasil são iguais’, essa sim merece resposta.
Generalizar é cômodo, mas injusto. Ignora trajetórias sérias, apaga quem trabalha de forma responsável e reduz a vida pública a um slogan vazio.
O país possui uma tradição política e diplomática sólida, construída por nomes que honraram a função pública, embora não estejam nas manchetes, já que boa gestão não rende escândalo.
Reduzir todos ao mesmo nível é desmerecer quem trabalha com seriedade e legitimar quem quer normalizar abusos.
🟫 2. Lembrar nossa tradição importa
O Brasil já deu ao mundo figuras que ultrapassaram fronteiras pela competência:
Entre tantos outros.
O discurso de que “ninguém presta” simplesmente ignora uma tradição que ajudou a moldar a reputação do país no cenário internacional.
🟫 3. A estratégia de Eduardo Bolsonaro em três camadas
3.1. Vitimização global da direita
Ao reunir Trump, Le Pen, Milei, Bukele, Netanyahu e Salvini, cria a ideia de um ataque mundial coordenado da esquerda — uma tática antiga para transformar problemas jurídicos individuais em perseguição ideológica.
3.2. Legitimação simbólica
Ao aproximar Bolsonaro desses nomes, o deputado tenta importar capital político internacional para blindar seu grupo, desviando o foco dos fatos concretos no Brasil.
3.3. Mobilização emocional
A frase “eles estão se tornando mais agressivos” funciona como gatilho para acionar a militância.
Já “precisamos reagir globalmente” sinaliza a continuidade de um ambiente discursivo de conflito permanente.
🟫 4. O que realmente está em jogo. Confira.
No conjunto, a narrativa tenta transformar responsabilizações jurídicas específicas em um episódio de confronto ideológico global.
São discursos que misturam causas distintas, confundem o público, deslocam o debate e fortalecem a militância emocional — tudo para blindar quem está no centro das investigações.
Política, porém, sempre exigiu mais que slogans.
Exige responsabilidade e compromisso com a realidade institucional.
Diante desse cenário difícil que nos impõe a declaração do Deputado Eduardo Bolsonaro fica fácil concluir:
Exportar uma leitura distorcida da política brasileira apenas alimenta visões externas rasas e caricaturais sobre o país.
Enquanto figuras públicas insistirem em internacionalizar conflitos domésticos para fins partidários, continuaremos sujeitos a análises equivocadas que desconsideram a complexidade da vida pública brasileira — e a seriedade de muitos que a exercem com honra.
Imagens e vídeos disponíveis e retiradas do Google




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