SEGURANÇA OU INFLUÊNCIA? O VERDADEIRO JOGO DE TRUMP NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL

SEGURANÇA OU INFLUÊNCIA? O VERDADEIRO JOGO DE TRUMP NA AMÉRICA LATINA E NO BRASIL 


Em artigo publicado no The Guardian, o jornalista Steve Bloomfield apresenta uma reflexão importante sobre a atual disputa política brasileira e o avanço da direita na América Latina: a interferência de Donald Trump pode favorecer forças políticas alinhadas à direita, mas o fator que mobiliza grande parte dos eleitores continua sendo a insegurança pública e o avanço do crime organizado. (https://www.theguardian.com/commentisfree/2026/oct/04/donald-trump-western-hemisphere-brazil-elections-lula-bolsonaro)


É uma análise que merece ser ampliada.


Porque, se a insegurança pública é apresentada como uma das principais razões para a intervenção ou pressão norte-americana sobre países latino-americanos, há uma pergunta inevitável: por que esse argumento passou a ocupar tamanho espaço na política externa de Washington justamente agora?


Venezuela, Colômbia, México e Brasil são países diferentes, com histórias, governos e problemas próprios. 


Mas há um elemento recorrente no discurso da administração Trump: crime, narcotráfico, gangues e segurança pública aparecem como justificativas para ampliar a pressão e a atuação dos Estados Unidos na região.


O problema é que a violência não nasceu ontem.


A população latino-americana convive há décadas com criminalidade, narcotráfico, desigualdade, organizações criminosas e fragilidade institucional. 

Esses problemas são reais e exigem respostas dos governos nacionais. 

Mas transformar uma questão estrutural de segurança pública em justificativa para ampliar a influência de uma potência estrangeira exige muito mais do que aceitar o argumento sem questionamentos.


A segurança pode ser o argumento. Mas será esse o único objetivo?


É aqui que a análise de Bloomfield ganha outra dimensão.


O jornalista sustenta que a influência de Trump pode contribuir para fortalecer a direita latino-americana, mas ressalta que as causas dessa transformação são predominantemente internas. 


A insatisfação com a criminalidade e a sensação de insegurança têm peso político próprio.


Isso, porém, não elimina outra possibilidade: a de que Washington esteja aproveitando problemas reais da região para avançar seus próprios interesses estratégicos.


A América Latina voltou a ocupar uma posição importante na disputa global entre Estados Unidos e China.


A presença econômica chinesa cresceu significativamente na região. 


A China tornou-se importante parceira comercial de diversos países latino-americanos, ampliou investimentos em infraestrutura e consolidou sua presença em setores estratégicos.


Nesse cenário, não é difícil compreender por que a disputa pela influência latino-americana ganhou importância geopolítica.


Segurança, comércio, energia, minerais estratégicos, infraestrutura, mercados consumidores e contenção da influência chinesa podem estar conectados dentro de uma mesma estratégia internacional.


Isso não significa afirmar que toda política norte-americana na região tenha como objetivo secreto conter a China ou explorar economicamente os países latino-americanos. Essa é uma interpretação que precisa ser sustentada por evidências específicas em cada caso.


Mas significa reconhecer uma realidade elementar da geopolítica: grandes potências raramente atuam apenas por altruísmo. Reflita sobre isso, leitor! 


O problema começa quando a segurança vira instrumento de tutela. 


Combater o crime organizado é uma necessidade legítima.


Cooperar internacionalmente contra o narcotráfico também.


O que precisa ser questionado é outra coisa: até onde pode ir uma potência estrangeira em nome da segurança de outro país?


Quando Washington define quais governos são aceitáveis, quais grupos políticos devem ser apoiados, quais países representam ameaça e quais políticas internas precisam ser modificadas, a discussão deixa de ser exclusivamente sobre segurança.


Passa a ser sobre soberania.


E soberania não pode ser relativizada pela conveniência do momento.


A história latino-americana conhece muito bem as consequências da interferência externa. Durante décadas, governos da região foram pressionados, desestabilizados ou condicionados pelos interesses das grandes potências.


Por isso, a pergunta precisa permanecer sobre a mesa:


os fins justificam os meios?


É possível combater o narcotráfico sem interferir na soberania política dos países. Como ocorre atualmente no Brasil, já que muitos especialistas alertaram da interferência externa até no pleito eleitoral! 


É possível estabelecer acordos de segurança sem transformar governos latino-americanos em áreas de influência.


É possível enfrentar organizações criminosas sem transformar a América Latina em território de disputa entre Washington e Pequim.


A América Latina não pode ser tratada como quintal de ninguém.


Precisamos, sim, da cooperação e da ajuda de outros países para enfrentar os desafios da região. 


Mas cooperação não pode significar tutela, submissão ou interferência nas decisões soberanas dos nossos países, como aconteceu na Venezuela. Trump sequer “faz a lição da sua própria casa”! 


Toda gestão democrática é passageira. Governos têm começo, meio e fim, e a administração Trump também terá seu tempo.


Até lá, cabe aos países latino-americanos preservar aquilo que não pode ser negociado: nossa liberdade, nossa independência e nossa soberania.


Cooperar, sim. Submeter-se, jamais.


A questão central não é escolher entre Estados Unidos e China.


É defender a capacidade dos países latino-americanos de estabelecer suas próprias relações internacionais, de acordo com seus interesses nacionais e com suas instituições democráticas.


Se os Estados Unidos desejam cooperar com o Brasil, a Colômbia, o México, a Venezuela ou qualquer outro país da região, que cooperem.


Se querem combater o narcotráfico, que estabeleçam mecanismos de cooperação.


Qualquer semelhança com o cenário atual da extrema direita no Brasil será mera coincidência? 


Se querem discutir comércio, investimentos e segurança, que negociem.


Mas cooperação é diferente de tutela.


E influência é diferente de soberania.


O discurso da segurança pública não pode se transformar em um cheque em branco para a intervenção externa.


A América Latina precisa enfrentar seus problemas, inclusive a violência e o crime organizado, com políticas próprias, cooperação internacional e fortalecimento institucional.


Mas precisa fazer isso sem aceitar que seus problemas internos sejam utilizados como justificativa para que grandes potências decidam, de fora para dentro, quem deve governar, quais interesses devem prevalecer e quais caminhos seus povos devem seguir.


No fim, a questão talvez seja maior do que Trump, Lula, Bolsonaro ou qualquer eleição específica.


É uma questão sobre quem terá o direito de decidir o futuro da América Latina.


E esse direito, em uma democracia, deve continuar pertencendo aos latino-americanos. 


Esperamos e precisamos que XiJinping fortaleça nossas laços por um BRICS cada vez mais forte. 










Saber mais, acesse também:

Trump approval at record low; Hispanic voters sour on Republicans, Reuters/Ipsos poll finds - https://www.reuters.com/world/us/trump-approval-record-low-hispanic-voters-sour-on-republicans-reutersipsos-poll-2026-10-05/


Republicans’ awkward midterms dance with Trump - https://www.reuters.com/world/us/republicans-awkward-midterms-dance-with-trump-2026-10-01/




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