NÃO É A DIREITA. NÃO É A ESQUERDA. É O BOLSO: OS DOIS CHOQUES QUE PODEM MUDAR A POLÍTICA DA AMÉRICA LATINA E DO BRASIL

Quem consegue administrar melhor os choques externos?

Esse talvez seja o ponto mais relevante da análise recente publicada em artigo da Foreign Affairs. (Quem desejar acesse: https://www.foreignaffairs.com/latin-america/two-shocks-upending-latin-america) 


A questão que pode definir o próximo ciclo político latino-americano não é apenas esquerda ou direita, mas quem consegue administrar melhor uma sequência de choques externos.


A política pode continuar sendo disputada entre esquerda e direita. Mas, diante de uma sequência de choques, o eleitor tende a olhar cada vez mais para uma pergunta concreta: quem consegue administrar a crise sem transferir todo o seu custo para a população?


No Brasil, essa poderá ser uma das questões centrais dessa disputa política.


Vamos começar pelo mais simples.


✔️ Se o seu celular apresenta uma pane, você entrega para qualquer pessoa consertar? Ou procura alguém em quem confia?


✔️ Se o seu veículo apresenta um problema mecânico, você o leva à primeira oficina que encontrar? Ou procura o seu mecânico, aquele profissional que conhece o carro e cuja experiência já lhe deu segurança?


Na gestão de um país, a lógica não é tão diferente.


Antes de escolher quem estará no comando, é preciso olhar além das etiquetas políticas. Vamos, por um momento, afastar a velha disputa direita × esquerda e fazer uma pergunta muito mais prática:


quem sabe conduzir o Brasil quando o mar fica revolto?


Você conhece o seu país. Sabe que o Brasil tem vantagens importantes: grande produção de alimentos, petróleo, energia renovável e um mercado interno robusto. 


Mas também conhece nossas vulnerabilidades: crises climáticas, oscilações das commodities, câmbio, combustíveis, juros e os efeitos de turbulências econômicas e geopolíticas que muitas vezes acontecem muito longe daqui, mas acabam chegando à nossa mesa.


É justamente nos momentos de calmaria que qualquer comandante parece preparado.


O verdadeiro teste acontece quando chegam as tempestades.


Então eu lhe pergunto:


Você sabe quem consegue administrar melhor uma sequência de choques externos?


Sim?

Não?

Ainda tem dúvidas?


Então, segure firme o leme e venha comigo.


Vamos navegar por essas águas tempestuosas da gestão nacional, porque, quando a tempestade chega, não basta saber para onde queremos ir. É preciso saber quem tem experiência, preparo e capacidade para conduzir o barco.


O problema é que um choque externo pode rapidamente se transformar em crise doméstica:


choque → aumento de custos → inflação → perda de poder de compra → pressão sobre o governo → deterioração fiscal → efeitos sobre câmbio e juros.

Viu aí? 


Romper essa cadeia exige mais do que discurso político. Exige gestão, planejamento, coordenação econômica e capacidade de proteger a população sem comprometer o futuro do país.


É por isso que talvez a pergunta das próximas disputas eleitorais não seja simplesmente:


“A América Latina está indo para a direita ou para a esquerda?”


Mas:


“Quem consegue atravessar a tempestade sem fazer o cidadão pagar sozinho a conta?”


Porque, quando a crise chega à mesa, no preço da comida, da gasolina, da energia, no emprego e na renda, a ideologia continua existindo, mas a capacidade de governar passa a ser cobrada na prática.



E, em um mundo de choques sucessivos, talvez seja justamente essa capacidade de proteger a população, preservar a estabilidade e manter o país de pé que se torne decisiva. Reflita nisso! 


No Brasil, essa pode ser uma das perguntas centrais dessa disputa política.


quem consegue proteger a população quando o mundo entra em turbulência?


Essa mudança é fundamental.


Um choque externo não é necessariamente provocado pelo governo. 

Uma guerra no Oriente Médio, uma interrupção no transporte internacional de petróleo, uma quebra de safra provocada por eventos climáticos extremos ou uma mudança abrupta nas tarifas comerciais podem atingir qualquer país. 


O que diferencia os governos é a capacidade de absorver o impacto, reduzir seus efeitos sobre a população e preservar a capacidade de recuperação da economia.


Exatamente aqui que entra a qualidade da gestão pública.


Um país mais preparado dispõe de instrumentos para enfrentar crises: reservas internacionais, segurança energética, produção doméstica de alimentos, capacidade fiscal, infraestrutura, instituições funcionando, políticas de proteção social e capacidade de diversificar mercados e fornecedores.


Mas não basta possuir esses instrumentos. É preciso saber utilizá-los.


Um governo pode receber um choque externo relativamente pequeno e transformá-lo em uma grande crise doméstica por meio de decisões equivocadas. 


Um governo pode transformar um choque externo em uma grande crise doméstica por meio de decisões equivocadas.


A pandemia mostrou isso no Brasil. A demora na aquisição de vacinas durante o governo Bolsonaro foi apontada pela CPI da Pandemia como fator que agravou a resposta à crise.


Durante aquele lamentável episódio, registrei, ainda em 2021, minha visão sobre a condução da pandemia e o cenário caótico que o Brasil enfrentava.


Naquele momento, eu já questionava decisões que hoje ajudam a compreender uma lição essencial: em uma crise, a qualidade da gestão pode fazer toda a diferença.


Deixo aqui o texto para quem quiser conhecer aquela análise: “CPI da Pandemia e o cenário caótico da gestão da Covid-19 no Brasil.”(https://veraluciafonsecabrasilia.blogspot.com/2021/06/cpidapandemia-e-o-cenario-caotico-da.html)


A lição é direta: não basta ter recursos. É preciso saber agir no momento certo.


Da mesma forma, um governo pode enfrentar uma turbulência internacional severa e conseguir limitar seus efeitos sobre emprego, renda e inflação.


O verdadeiro teste de um governo

É justamente nos momentos de crise que a capacidade administrativa deixa de ser uma abstração.


Em tempos normais, diferentes governos podem apresentar resultados semelhantes. Quando o petróleo dispara, uma safra é perdida, o câmbio sofre forte pressão ou uma guerra altera as cadeias de comércio, as diferenças aparecem.


O teste passa a envolver algumas questões objetivas:


✔️ O governo possui espaço fiscal para agir?


✔️ Consegue preservar programas sociais sem produzir uma deterioração fiscal insustentável?


✔️ Tem reservas e instrumentos monetários para enfrentar pressões cambiais?


✔️ Consegue garantir energia e alimentos?


✔️ Possui relações comerciais suficientemente diversificadas para não depender de um único parceiro?


✔️ Consegue negociar internacionalmente sem transformar cada disputa econômica em uma crise diplomática?


✔️ Tem capacidade de investir rapidamente onde existe um gargalo?


E há uma questão ainda mais importante:


o governo consegue comunicar à sociedade a dimensão real do problema sem produzir pânico, negacionismo ou falsas expectativas?


É aqui que a política encontra a economia.


Por isso, uma sequência de choques externos pode alterar o comportamento eleitoral.


O eleitor pode apoiar determinado candidato porque considera segurança pública a prioridade. 


Mas, se alguns meses depois enfrenta aumento expressivo nos preços dos alimentos, da energia e dos combustíveis, suas prioridades podem mudar.


Não necessariamente porque mudou de ideologia.


Mudou o problema que precisa resolver.


Essa distinção é importante.


A política latino-americana não precisa ser interpretada exclusivamente como uma disputa entre esquerda e direita, especialmente aqui no Brasil. 

Há também uma dimensão extremamente pragmática:


quem consegue entregar estabilidade quando as circunstâncias deixam de ser favoráveis?



Esse pode ser um dos critérios mais relevantes para compreender futuras disputas eleitorais na região, também no Brasil sem pressupor que exista uma resposta única para todos os países.


O Brasil possui uma característica peculiar: é simultaneamente vulnerável a alguns choques externos e relativamente bem posicionado para absorver outros.


Lembrando que nosso país é grande produtor de alimentos, petróleo e energia renovável e possui um mercado interno gigantesco. Isso representa uma espécie de amortecedor.


Mas também possui vulnerabilidades importantes.


Uma crise climática que prejudique a agricultura pode pressionar os preços dos alimentos. Uma alteração no mercado internacional de petróleo pode afetar combustíveis e inflação. Uma desvalorização cambial pode encarecer produtos importados. Uma crise internacional pode reduzir a demanda por commodities brasileiras.


E existe um efeito em cadeia que já demonstrei no início do texto. Vale ressaltar: 


choque externo → aumento de custos → inflação → perda de poder de compra → pressão por medidas governamentais → aumento potencial dos gastos públicos → pressão fiscal → reação dos mercados → efeitos sobre câmbio e juros.


Administrar essa cadeia exige muito mais do que uma boa narrativa política.


Exige coordenação entre política fiscal, política monetária, política energética, política agrícola, comércio exterior e proteção social.


Porque, quando a crise chega à mesa do cidadão, no preço do arroz, da carne, da gasolina, da conta de luz, no emprego e no aluguel, a ideologia pode continuar importante, mas a capacidade de administrar a realidade passa a ser inevitavelmente cobrada.


E talvez esse seja o ponto mais sofisticado da análise: em um mundo de choques sucessivos, a vantagem política pode não pertencer permanentemente à esquerda ou à direita, mas à capacidade demonstrada de administrar crises, proteger a população e preservar as condições para o crescimento.


Isso não significa que a ideologia tenha desaparecido. Significa que a competência para enfrentar circunstâncias adversas pode se tornar uma variável eleitoral tão importante quanto a própria identidade ideológica.


É importante enfrentar e analisar essa variável eleitoral antes de votar! 

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