Quando as Tarifas Viram Armas: O Brasil na Nova Geopolítica do Comércio Mundial
Quando as tarifas deixam de ser uma ferramenta econômica e passam a ser uma arma geopolítica, o mundo entra em uma nova fase das relações internacionais.
Nos últimos anos, assistimos à crescente utilização do comércio exterior como instrumento de coerção política.
Sanções, tarifas e barreiras comerciais deixaram de servir apenas para corrigir desequilíbrios econômicos e passaram a integrar o arsenal estratégico das grandes potências.
O objetivo já não é apenas proteger mercados, mas influenciar governos, alterar decisões soberanas e redefinir o equilíbrio de poder no cenário internacional.
Mas onde o Brasil se encaixa nessa nova realidade? As recentes tarifas impostas pelo governo Donald Trump são apenas uma disputa comercial ou fazem parte de uma estratégia geopolítica mais ampla?
É justamente essa questão que um instigante artigo da Foreign Affairs ajuda a compreender.
Vem comigo que vou mostrar por que o caso brasileiro é muito mais complexo do que parece à primeira vista.
Quando os pequenos pagam a conta da disputa entre as grandes potências
Há uma máxima atribuída ao historiador grego Tucídides que atravessou mais de dois milênios: “Os fortes fazem o que podem; os fracos sofrem o que devem.” Em um cenário internacional cada vez mais marcado pela competição entre grandes potências, essa frase parece voltar ao centro do debate.
Em artigo publicado na Foreign Affairs, intitulado “The Small Suffer What They Must”, o argumento central é que a atual erosão das normas e instituições internacionais está tornando os Estados menores os principais prejudicados da nova geopolítica.
Segundo a análise, o retorno de uma política externa baseada na demonstração de força — exemplificada por pressões econômicas, disputas territoriais, intervenções e rivalidades estratégicas entre Estados Unidos, China e Rússia — enfraquece o sistema de regras que, durante décadas, ofereceu alguma proteção aos países de menor poder relativo.
Os efeitos são amplos.
☑️ Economias menores enfrentam barreiras comerciais crescentes, maior volatilidade financeira e redução do espaço diplomático.
☑️ Organismos multilaterais perdem influência justamente quando esses países mais precisam de fóruns capazes de equilibrar as relações internacionais.
☑️ O resultado é uma ordem global mais fragmentada e menos previsível.
Mas o texto faz uma observação importante: o uso recorrente da coerção também impõe custos às grandes potências.
Pressão econômica, sanções e intervenções podem produzir ganhos imediatos, porém frequentemente geram instabilidade prolongada, crises humanitárias e envolvimento crescente em conflitos difíceis de encerrar.
A história mostra que demonstrar poder nem sempre significa alcançar objetivos políticos duradouros.
A reflexão vai além das disputas entre governos.
Ela questiona se o enfraquecimento do direito internacional e das instituições multilaterais não acabará tornando o sistema internacional mais instável para todos — inclusive para aqueles que hoje dispõem de maior poder militar e econômico.
Em um mundo cada vez mais multipolar, preservar mecanismos de cooperação e regras compartilhadas pode ser menos uma questão de idealismo e mais uma necessidade para evitar que a lógica da força substitua definitivamente a lógica do direito.
Aqui faço uma referência ao artigo:
“Desde quando o presidente Donald Trump voltou ao cargo de presidente dos EUA, nenhum estado foi pequeno demais para se encontrar em suas miras.
Em seu discurso inaugural em janeiro de 2025, Trump se comprometeu a retomar o Canal do Panamá e adquirir a Groenlândia escassamente povoada.
Essa ameaça de pequenos e médios estados acelerou em 2026, com um ataque espetacular para remover o presidente da Venezuela e um bloqueio de petróleo de Cuba. Irritado com as críticas papais às suas políticas externas, Trump até atacou o Papa Leão XIV, o soberano da pequena Cidade do Vaticano.
A abordagem de poder de fazer o certo do presidente é a mais recente manifestação de uma tendência alarmante: a erosão das restrições ao comportamento do grande poder.
Como a invasão não provocada da Ucrânia pela Rússia e o expansionismo da China no Mar da China Meridional deixam claro, os Estados Unidos não estão sozinhos em jogar seu peso nos “pequeninos”.
Agora, com grandes potências destruindo o tecido do direito e das instituições internacionais, há muito poucos cheques sobre intervenção e conquista.
Os estados menores do mundo são as maiores vítimas do caos de uma ordem global em desenrolar.
Como parceiros mais fracos nas relações internacionais assimétricas, países tão díspares como Quênia, Paraguai e Cingapura não podem estabelecer unilateralmente as regras e muitas vezes lutam para moldá-las.
Estados “menores” (aqui não se trata de tamanho geográfico) enfrentam o aumento das barreiras econômicas, a marginalização diplomática e o aumento de choques, como mercados voláteis e clima extremo.
Uma economia mundial integrada, na qual eles poderiam encontrar nichos para se desenvolver, está se fragmentando.
Organizações internacionais, que deram aos estados menores assentos na mesa e permitiram que eles alcançassem o público global, são coxos pela redução de recursos e pela diminuição da legitimidade.
E o desmantelamento de ajuda externa e bens públicos globais privou estados menores de amortecedores contra desastres.
Os dilemas enfrentados por estados menores também são muito importantes para as grandes potências.
As grandes potências podem intimidar seu caminho para o sucesso, como os Estados Unidos fizeram no Panamá, onde a pressão de Washington levou a uma revisão dos operadores portuários ligados à China perto do canal, e na Venezuela, cuja liderança recém-apoiada pelos EUA abriu a indústria de petróleo do país para empresas americanas.
Mas sustentar a coerção é caro e corre o risco de atolonar os fortes nos assuntos dos fracos.
Como em Cuba hoje, a coerção do grande poder pode provocar uma catástrofe social e econômica sem um fim de jogo político claro.
A falha em atingir os objetivos iniciais muitas vezes coloca grandes poderes em uma ladeira escorregadia em direção a intervenções cada vez mais caras.”
É a tradução do artigo!
A profundidade dessa reflexão nos leva a perceber a desordem da política global.
Enfim, a recente escalada das tarifas comerciais impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil ilustra, em grande medida, essa lógica de coerção descrita pela Foreign Affairs.
Quando instrumentos econômicos deixam de ser utilizados apenas para corrigir desequilíbrios comerciais e passam a servir como mecanismos de pressão política e geopolítica, o comércio internacional transforma-se em um instrumento de poder.
Esse episódio reforça que, em uma ordem internacional cada vez mais fragmentada, a força tende a substituir a negociação, enfraquecendo regras multilaterais construídas ao longo de décadas.
O desafio para países como o Brasil não é apenas responder a medidas de curto prazo, mas também atuar para preservar um sistema internacional baseado em normas, no qual as divergências sejam resolvidas pelo diálogo e pelo direito, e não pela imposição da vontade do mais forte.
Afinal, quando a coerção passa a ditar as relações internacionais, nenhum país de poder intermediário está verdadeiramente imune. O Brasil é a prova!


Comentários
Postar um comentário
Obrigada por comentar no meu blog