A caminhada de 240 km de Nikolas Ferreira mobiliza militância e domina as redes, mas evidencia os limites da “política de gestos”

A caminhada de 240 km do deputado Nikolas Ferreira

Mobiliza militância, domina redes e produz imagens. 

No entanto expõe os limites da política performática diante da necessidade de projeto e governança.

Entre a performance e o poder real, a política do gesto revela mais sobre limites estratégicos do que sobre futuro eleitoral. 

Você sabe quais são esses limites? Não? Então esse texto é para você, eleitor 


Para entender esse cenário atual, vamos comigo voltar aos idos 1968. 


Qual brasileiro não conhece a letra da música “Pra não dizer que não falei das flores" (ou "Caminhando"), de Geraldo Vandré


Foi a música de protesto mais emblemática contra a ditadura militar em 1968, mas não venceu o III Festival Internacional da Canção (FIC). 

Caminhando e cantando e seguindo a canção

Pelos campos há fome em grandes plantações

Somos todos iguais, braços dados ou não

Pelas ruas marchando indecisos cordões

Nas escolas, nas ruas, campos, construções

Ainda fazem da flor seu mais forte refrão

Caminhando e cantando e seguindo a canção

E acreditam nas flores vencendo o canhão

Vem, vamos embora, que esperar não é saber

Há soldados armados, amados ou não

Quem sabe faz a hora, não espera acontecer

Quase todos perdidos de armas na mão

Pelos campos há fome em grandes plantações

Nos quartéis lhes ensinam uma antiga lição

Pelas ruas marchando indecisos cordões

De morrer pela pátria e viver sem razão…”


Geraldo Vandré


Assim começou a caminhada de cerca de 240 km entre Paracatu e Brasília chamada de “Caminhada pela Justiça e Liberdade”.


O idealizador da caminhada, o deputado Nikolas Ferreira, aposta na transformação de uma ação individual em símbolo político de protesto contra decisões do Supremo Tribunal Federal e contra as prisões decorrentes dos atos de 8 de janeiro.


Ao longo do percurso, a caminhada buscou construir uma narrativa de sacrifício pessoal e mobilização moral, com forte apelo simbólico e alta circulação nas redes sociais.


Com a chegada ao ponto final neste domingo, 25 de janeiro de 2026, a pergunta central permanece: 

  • o gesto será suficiente para ultrapassar a bolha militante e produzir efeito político real — ou cumprirá apenas o papel de reafirmar convicções já consolidadas?

Do ponto de vista comunicacional, o ato é eficaz: produz imagens fortes, vídeos facilmente compartilháveis e uma narrativa simples de sacrifício pessoal, capaz de dominar a pauta pública com mais impacto do que debates técnicos.


Já politicamente, a caminhada funciona como mecanismo de agregação da direita conservadora e bolsonarista, reunindo apoiadores, parlamentares, influenciadores e lideranças religiosas. 


Com isso, fortalece redes já existentes e consolida Nikolas não apenas como parlamentar, mas como liderança simbólica de um campo político, especialmente relevante em contexto eleitoral.


Ao avaliarmos o Impacto eleitoral e futuro político do gesto de Nikolas Ferreira 


👉🏻 De um lado, analistas têm apontado que movimentos como este podem influenciar o debate eleitoral de 2026 — especialmente porque dão palco para temas caros à base bolsonarista, como “luta contra perseguição judicial” e defesa de liberdade interpretada através de categorias ideológicas.  


👉🏻 Por outro lado, críticos argumentam que esse foco em atos simbólicos em vez de propostas de política pública concreta pode ser explorado pelo governo atual (e adversários políticos) como sinal de falta de agenda positiva por parte da oposição — possivelmente beneficiando candidaturas como a do presidente Lula ao ocupar mais espaço com entregas e programas efetivos.  


Daí chegamos aos  riscos e limitações da “política do gesto”. Veja: 


O uso de gestos simbólicos é útil para chamar atenção, mas tem limites, vamos a eles: 

  • Outros agentes políticos podem responder com narrativas contrárias que diminuam o impacto, 
  • E sem um projeto institucional claro, o gesto pode acabar sendo percebido como espetáculo e não como política séria.  
  • Além disso, movimentos assim tendem a mobilizar mais quem já está mobilizado politicamente, e podem ter dificuldade em atrair públicos moderados ou independentes — um fator importante em eleições nacionais amplas.

Sendo assim a conclusão obviamente é essa:

A eficácia do gesto politico do deputado Nikolas como instrumento de mobilização popular depende da capacidade de traduzir símbolo em ação política concreta e sustentada no tempo, algo que somente se verá com o desenrolar dos próximos meses.


Uma avaliação política ampliada do gesto nos traduz isso:

  1. Movimentos como a caminhada do deputado Nikolas Ferreira operam com alta eficiência dentro de bolhas já politizadas, mas apresentam desempenho limitado quando o objetivo é expandir eleitorado ou dialogar com segmentos moderados, pragmáticos ou independentes.

Isso acontece por alguns fatores centrais:


👉🏻 Política identitária de confronto

A ação reforça identidade, pertencimento e coesão interna do grupo que já compartilha valores, diagnósticos e ressentimentos semelhantes. No entanto, ao se ancorar em uma narrativa de antagonismo institucional (“nós contra eles”), ela afasta eleitores que buscam estabilidade, previsibilidade e soluções práticas, não confronto permanente.


Em eleições nacionais, esse público intermediário costuma ser decisivo — e raramente se mobiliza por gestos simbólicos de alta carga ideológica como esse gesto. 


👉🏻 A mobilização sem mediação institucional. 


A caminhada comunica emoção, sacrifício e fidelidade à causa, mas não apresenta mediação institucional clara:

não entrega propostas,

não aponta soluções legislativas,

não articula políticas públicas concretas.


Isso limita seu alcance fora do núcleo militante. Para o eleitor moderado, o gesto pode soar performático, quando não evasivo diante de problemas reais como renda, saúde, educação e segurança.


E finalmente, o terceiro estágio é determinante, uma vez que todo ato ou gesto político não tem apenas a intenção de mobilizar quem já está mobilizado. 


Antes, o gesto politico se resume a atrair e expandir eleitorado ou dialogar com segmentos moderados, pragmáticos ou independentes. Pois de outra forma perde o objeto.  Vamos ao terceiro estágio:


👉🏻 É o reforço da rejeição

Se por um lado a caminhada consolida apoio, por outro solidifica rejeição


Eleições 2026 

Em disputas majoritárias, rejeição alta costuma ser mais decisiva do que entusiasmo militante.


O eleitor indeciso tende a evitar candidatos percebidos como agentes de conflito contínuo, especialmente quando o discurso não aponta saída prática.


Insisto na tecla concluindo.

Os próximos meses serão decisivos para definir a trajetória política de Nikolas Ferreira

  1. se o gesto se converterá em projeto ou 
  2. se permanecerá como performance. 

Na política, como no Festival de 1968, nem sempre a música mais cantada vence. 


Lembre-se que a canção de Geraldo Vandré mobilizou multidões, mas ficou em segundo lugar. 


O tempo, e não o aplauso imediato, é quem decide quem avança. Vamos aguardar o resultado das eleições de 2026. 















Imagens disponíveis e retiradas do Google 

Modificadas com recursos da IA 


Sites e links de consultas:

https://periodicos.ifg.edu.br/tecnia/article/download/253/775/3128



Comentários

  1. Entendo, Vera Lúcia, respondendo às suas perguntas: "1 - se o gesto se converterá em projeto" ou "2 - se permanecerá como performance", diante do que absorvo ou acompanho da política nacional, este deputado está afeito a postagens chamativas na Internet sempre em defesa de seus pares direitosos tentando abafar escândalos e crimes seus e de seus pares, quase nunca apresentando proposições criativas. Não acredito que mude seu comportamento nos poucos meses que faltam para as eleições. az.

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    1. Obrigada amigo pelo comentário e pela troca de ideias.
      Meus textos partem justamente desse lugar que você foca: provocar reflexão, tensionar certezas e convidar o leitor a pensar criticamente, sem oferecer respostas prontas.
      A intenção não é conduzir posições, mas estimular que cada pessoa construa a sua — de forma consciente, informada e responsável.
      Em tempos de ruído, simplificações e polarização extrema, refletir é um ato político e formar consciência cidadã é, talvez, o exercício mais urgente da democracia.

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